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A falta de acesso ao “capital cultural” é uma das razões que impedem os 30 milhões de brasileiros que aumentaram seu poder de consumo nos últimos anos de entrarem para a classe C, a chamada nova classe média. Contrapondo a ideia de que a passagem para esse estrato já ocorreu, o professor da UFJF Jessé Souza, organizador do livro “Os Batalhadores Brasileiros – nova classe média ou nova classe trabalhadora?”, afirma que eles formam uma nova faixa social brasileira, a que ele próprio denomina na obra como “batalhadores”, responsáveis por “martar um leão por dia”. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, no último domingo, 13, o sociólogo considera que foi importante a ascensão desses brasileiros, mas que eles vivem em condições e com prestígio desfavoráveis em relação à camada média estabelecida no País.
“A vida deles é outra. É marcada pela ausência dos privilégios do nascimento que caracterizam as classes médias e alta. Não falo só de dinheiro transmitido por herança. Os privilégios envolvem também o recurso mais valioso das classes médias: o tempo”, disse.

Segundo o professor, “os batalhadores, em sua esmagadora maioria, precisam começar a trabalhar cedo e estudam em escolas públicas de baixa qualidade”, possuem alto esforço pessoal e aceitam superexploração de mão de obra.

Como valores, essa faixa da população preza pela “ética articulada do trabalho duro”, incorporam e internalizam a tríade disciplina, autocontrole e pensamento positivo. A religião para esse grupo oferece, conforme o professor, “o que a sociedade como um todo, o Estado ou mesmo algumas das famílias menos estruturadas dessa classe jamais deram a eles: confiança em si mesmos, autoestima, esperança e força de vontade para vencer as enormes adversidades da vida sem privilégios de nascimento.”

Conceitos

Na visão do professor da Faculdade de Economia, Wilson Rotatori, se considerada apenas a renda e a capacidade de consumo para classificar as classes, houve a passagem dos 30 milhões de brasileiros para o estrato médio. “Quando se olha a ascensão por outros critérios, utilizam-se conceitos de classes diferentes daqueles empregados pela economia.”

O professor considera que é necessário investigar se programas sociais desenvolvidos no Brasil estão permitindo ou permitirão o acesso dessa população aos bens culturais, como é o caso do ingresso mais amplo atualmente no ensino superior. Afirma ainda que a expansão do consumo possibilitou aos integrantes da nova classe média o uso de itens restritos às classes mais altas.

Rotatori, doutor em Economia, lista alguns fatores que possibilitaram a expansão da classe C: acesso a crédito, redução do nível de desemprego, efeitos da crise econômica externa de 2009 terem sido menos intensos no Brasil e o investimento em programas sociais.

Sob o critério de renda, a nova classe média brasileira é composta por 52% da população economicamente ativa. São 92,8 milhões de pessoas com salário mensal variável entre R$ 1.115 e R$ 4.807.

Serviço:

Jessé Souza (Org.). Os batalhadores brasileiros – nova classe média ou nova classe trabalhadora? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. 354 páginas. Em média, R$ 56.

Leia a íntegra da entrevista do professor Jessé Souza à Folha de S. Paulo.