Segundo o pesquisador, Xântipo não foi um caso isolado. Outros gregos também foram responsáveis pela transferência da cultura helenística para a civilização cartaginesa. "Como os mercenários tinham origens diversas - da África até regiões da Líbia - acabavam por trazer inovações culturais desses lugares", explica Henrique. Por tudo isso, essa interação cultural aconteceu com mais intensidade em Cartago."Os cartagineses tinham tradição militar fraca e aproveitaram o conhecimento dos mercenários".
As trocas culturais ocorriam inclusive entre inimigos. Os generais gregos Agatócles de Siracusa e Pirro de Épiro lutaram contra Cártago, imitando Alexandre, o Grande, na forma como conduziam suas conquistas e no desejo de dominação cultural sobre os povos. “Esse intercâmbio ocorre na guerra mesmo entre lados opostos”, esclarece Henrique. “Além disso, Agatócles também empregava tropas mercenárias e teve um papel importante na transferência desse conhecimento”, conta. “Pirro, por sua vez, foi o líder que mais se aproximou de Alexandre nas estratégias de guerra.”
ELEFANTES – A prática de contratar mercenários era comum naquela época. A diferença é que, em Cartago, todo o Exército era contratado de outras regiões. “Dentre os conhecimentos helenísticos incorporados destaca-se, por exemplo, o uso de elefantes em combates”, explica Henrique. No treinamento do Exército de Cártago, os comandos dados eram em grego.
Segundo o orientador da pesquisa, Vicente Dobroruka, a Universidade de Brasília entrou na vanguarda das pesquisas na área com a tese de Henrique. A história só recentemente se debruçou sobre essa influência cultural dos profissionais da guerra. “Nesse sentido a tese de Henrique inova por levar em conta o papel dos mercenários”, elogia o professor.
Segundo o professor Vicente, o valor de estudos como esse está em mostrar como a cultura helenística chegou ao ocidente bem antes do que se pensava, quando Roma anda começava a se expandir. Henrique explica ainda que os estudos na área só tornaram-se mais sistemáticos a partir do final da década de 90. O período estudado - correspondente à primeira Guerra Púnica, conflito que opôs Cartago a Roma - também recebia pouca atenção na Academia. “Até agora os estudos concentravam-se apenas na Segunda Guerra Púnica – a partir da atuação do líder cartaginês Aníbal Barca”, destaca.
Cartago entrou em conflito também com a república nascente de Roma, com planos de expansão no mediterrâneo. Os romanos acabaram por sobrepujar os cartagineses com a destruição da cidade no século II a.C.
Cartago era uma cidade do norte da África que chegou a controlar chegou a dominar regiões da Espanha, Sardenha e Corsega. O povo cartaginês expandiu-se entre os séculos V e III a.C., controlando também durante esse período a ilha de Sicília, ao sul da peninsula itálica. Comerciantes e com profundo conhecimento marítmo, bateram-se durante esse período com os gregos da ilha, que habitavam principalmente a região da cidade de Siracusa na metade leste. Esse foi o contexto em que Henrique situou sua tese. Um período de conflitos focando-se especialmente no embate entre os dois povos.
Para fazer sua pesquisa, Henrique se baseou em historiadores gregos e romanos. Foram quase 40 fontes, muitas vezes textos pequenos e até mesmo parágrafos isolados. “Busquei formular hipóteses plausíveis a partir da unificação de relatos diversos”, afirma Henrique. Parte da pesquisa foi realizada em Berkeley, na Universidade da Califórnia, por meio do doutorado sanduíche.

Em seguida, Alexandre seguiu para o Egito, onde não encontrou resistência. Lá, foi considerado um libertador, pois livrou os egípcios do domínio persa. Na ocasião, fundou a cidade de Alexandria, que se tornou sede de uma das maiores bibliotecas da Antiguidade e um importante centro cultural. Do Egito, Alexandre marchou com seus soldados em direção à Mesopotâmia.
Como resultado dessas e outras campanhas, Alexandre criou um império que se estendia da Grécia ao rio Indo. As conquistas do rei aproximaram o Ocidente do Oriente, dando origem a cultura helenística. A mistura cultural era incentivada por Alexandre, que não se opunha às diferentes religiões e incentivava que homens orientais se casassem com mulheres ocidentais.
UnB Agência